Salvador é exceção — o resto do Nordeste ainda corre atrás
O retrato mais recente do saneamento brasileiro, do Instituto Trata Brasil com base no SINISA, traz um dado que resume bem a desigualdade regional: entre as capitais brasileiras, apenas cinco têm pelo menos 80% de tratamento de esgoto — Curitiba, Brasília, Boa Vista, Rio de Janeiro e Salvador, a única representante nordestina nesse grupo. Nenhuma outra capital do Nordeste aparece entre as seis com mais de 90% de coleta de esgoto do país.
A média nacional de atendimento com água tratada foi de 83,1% em 2023, segundo o SINISA — mas essa média esconde abismos: enquanto municípios do Sudeste já universalizaram o serviço, o Nordeste convive com situações como as de bairros periféricos, povoados e comunidades rurais que ainda dependem de solução improvisada.
O impacto disso não é abstrato: estudo acadêmico sobre a região Nordeste mostrou que cada ponto percentual a mais de cobertura de esgotamento sanitário reduz em 3,52% os custos com internação hospitalar por doenças de veiculação hídrica no SUS — ou seja, saneamento ruim é também conta de hospital mais cara pro Nordeste inteiro.
Nos nove estados, o desafio se repete com sotaque local: no litoral, é proteger rios, manguezais e aquíferos da poluição urbana; no semiárido, cisternas, reuso de água e dessalinização precisam complementar rede que não chega; nas cidades médias, perdas na distribuição jogam fora água tratada que já custou caro pra produzir.
Saneamento decente não pode ser privilégio de bairro nobre de capital. Enquanto Salvador mostra que dá pra tratar esgoto de verdade no Nordeste, o desafio de 2026 é replicar isso — com investimento contínuo — nos outros oito estados.
CAPITAIS COM MAIS DE 80% DE TRATAMENTO DE ESGOTO
Curitiba (PR) · Brasília (DF) · Boa Vista (RR) · Rio de Janeiro (RJ) · Salvador (BA)