Pernambuco e Ceará: dois estados, duas histórias de violência que ainda não terminaram
Os números oficiais mais recentes colocam o Nordeste numa posição incômoda: segundo o Mapa da Segurança Pública, referente a 2024, quatro dos cinco estados mais violentos do Brasil são nordestinos — Ceará (34,42 homicídios por 100 mil habitantes, o pior índice do país), Pernambuco (33,55), Alagoas (30,96) e Bahia (28,32). Números que representam mais que o dobro da taxa nacional.
Mas o dado que também é real, e que a região vive na pele, é que Pernambuco tem a política de segurança mais antiga e estudada do Brasil: o Pacto pela Vida, criado em 2007, que ao longo de mais de uma década conseguiu reduzir as taxas de homicídio no estado em cerca de 40%. Hoje o programa se chama Juntos pela Segurança, e o primeiro quadrimestre de 2026 fechou com o melhor resultado da série histórica: queda de 31% nos homicídios em relação a 2004 e recuo de 76,9% nos roubos frente ao pico de 2017.
A meta oficial do governo estadual é terminar 2026 com, no máximo, 2.399 mortes violentas intencionais— 30% a menos que as 3.427 registradas em 2022.
"Quatro dos cinco estados mais violentos do Brasil ficam no Nordeste — mas Pernambuco mostrou que dá pra reverter isso em quase 20 anos."
O problema é que reduzir não é o mesmo que resolver. Recife já foi, em anos recentes, a capital mais violenta do país; hoje ainda concorre entre as piores taxas do Nordeste. E o mesmo Mapa da Segurança Pública mostra que 92,17% das vítimas de homicídio doloso no Brasil são homens, a maioria jovens e negros — um recorte que se repete, agravado, nas periferias e no interior nordestino.
A queda em Pernambuco também levanta uma pergunta que outros oito estados ainda não conseguiram responder: dá pra sustentar uma política de segurança por quase 20 anos, atravessando governos diferentes, sem perder o foco? É esse o desafio que fica para Alagoas, Bahia e, principalmente, Ceará — hoje no topo do ranking negativo.
A prevenção que não aparece nas estatísticas de manchete
Por trás dos números de queda em Pernambuco não está só policiamento — está também investimento em tecnologia, reforço de efetivo e integração entre forças de segurança, segundo dados divulgados pela própria Secretaria de Defesa Social do estado.
Mas a experiência pernambucana também ensina um limite: mesmo com quase duas décadas de política pública contínua, Pernambuco segue entre os cinco estados mais violentos do Brasil. Isso mostra que segurança pública nordestina não se resolve só com um programa de sucesso isolado — precisa de educação, geração de renda, presença do Estado nas periferias e nos municípios do interior, e continuidade política que atravesse eleições.
A violência contra a mulher segue sendo outro capítulo que os números gerais escondem: feminicídios e agressões domésticas exigem rede de atendimento — delegacias especializadas, casas de acolhimento, medidas protetivas rápidas — que ainda é desigual entre a capital e o interior em todos os nove estados.
A pergunta que fica pra ED 08: quando o Ceará, hoje na pior posição do país, vai construir sua própria versão de uma política de segurança de longo prazo?
RANKING 2024 — TAXA DE HOMICÍDIOS (por 100 mil hab.)
1º Ceará — 34,42
2º Pernambuco — 33,55
3º Alagoas — 30,96
4º Bahia — 28,32
5º Maranhão — 27,30
Média nacional: 16,64